segunda-feira, 25 de março de 2013

Banheiros Químicos.

Já pararam pra prestar atenção em cada detalhe de uma cabine de banheiro químico? Bom, é claro que não. Primeiro porque o fato isolado de ir a uma dessas cabines é praticamente uma tragédia: concentramos nossos pensamentos apenas em cumprir o objetivo, que é satisfazer nossas necessidades fisiológicas e sair correndo o mais depressa possível dali, antes que algum conhecido veja e a notícia se espalhe, fazendo sua reputação ser despedaçada. Ok, eu estou exagerando, não é tudo isso, mas decerto não é nada agradável.
Pois bem. Um belo dia estava eu caminhando pelo centro da cidade, ignorando toda aquela multidão, desligando minha mente das buzinas dos carros e barulho dos motores, tentando chegar depressa ao meu destino: o trabalho. Eu estava absurdamente atrasada e meu chefe iria comer meu fígado, pois eu havia prometido que chegaria lá com a matéria há quarenta minutos. Antes de mais nada, aqui vai uma dica para seus futuros dias de trabalho: quando estiverem atrasados, DIGAM A VERDADE. Nada irrita mais uma pessoa do que você falar que está chegando, quando na verdade não está. Ok, retomando...
Comecei a correr assim que alcancei uma praça, mas meus passos estavam se realizando com cada vez mais dificuldade: minha bexiga doía. Eu precisava urgentemente ir a um banheiro, senão aconteceria um desastre bem no meio daquela rua. E eu não queria de jeito algum guardar para a minha vida inteira um mico desses na memória. Sabe quando as coisas acontecem e parece que acompanharão você pra sempre? “Então, você conhece a Melissa?”, e o outro responde: “Ah, a que fez strip tease na festa do Marcos?”. Pois é!
Vistoriei o ambiente, a procura daquelas malditas cabines azuis em que eu poderia despejar todo aquele líquido retido no meu corpo, que estava dificultando minha pressa e quem sabe meu emprego. Finalmente localizei-as, em um canto nada discreto do local: me pergunto como não as vi antes e abri a boca horrorizada ao constatar o tamanho da fila para as cabines femininas. Afinal, não estava tão calor assim para eu me dar a desculpa de que todas estavam apertadas por terem tomado muito líquido: Então porque CARGAS DÁGUA todo mundo saiu de casa sem usar o banheiro? Deveria haver uma punição legal para tal desleixo, foi o que pensei. Mas logo em seguida mudei de idéia: não, eu seria punida também.
Fiquei parada atrás de uma mulher que estava mais inquieta do que eu. Suas pernas toda hora arrastavam uma na outra e pelo cheiro que eu conseguia captar, a situação dela era mais grave que a minha. Por Deus, aquela ali podia matar: devia tá estragada. Olhei desesperada para o relógio e constatei que se eu não fizesse logo o que devia fazer, meu chefe seria preso por cometer um homicídio brutal de sua indefesa funcionária. Quando um homem desocupou a cabine masculina, me ocorreu a idéia: é claro que eu nunca mais iria querer lembrar disso, haviam infinitas testemunhas ali. Mas ninguém me conhecia. Pelo menos não ainda.
Corri até a cabine e adentrei, mas me arrependendo no segundo seguinte. Alguém já teve a “sorte” de entrar em uma cabine masculina? Me pergunto se os homens que andam pela rua sofrem todos de mal de Parkinson, pois não era possível, meu Deus. Havia coisas espalhadas em todos os lugares, exceto na privada. Bem, privada entre aspas. Aquilo é um buraco negro que você tem até medo de chegar perto, esperando que a qualquer momento uma mão enluvada irá te puxar pelo traseiro rumo ao infinito. Na verdade, levando em consideração os graciosos desenhos feitos na parede daquela cabine em forma de xixi, ocorreu-me a imagem de um homem segurando o seu amigo inseparável e dançando uma rodada de axé, ao som de Ivete Sangalo: “Abalou, abalou... Sacudiu, balançou...”.
Ok. Foco. Eu precisava terminar o que tinha pra fazer ali antes que o nojo me sufocasse o suficiente para eu sair correndo feito uma maluca, agitando os braços igual  um boneco de posto de gasolina — acredite, quando eu fico nervosa, eu REALMENTE corro desse jeito. Firmei os pés no chão para manter o equilíbrio e fui abrindo o fecho da minha calça, tentando ignorar as pontadas doloridas que eu sentia na bexiga.
Na verdade, quando você está apertada, o processo de fazer xixi é quase como lidar com um bandido cheio de reféns: qualquer movimento brusco demais pode acarretar um desastre. Então fui baixando a calça aos poucos, praticamente mordendo a língua para não sussurrar: “Calma, amigo, ninguém aqui quer machucar você”. Acho que meu nível de babaquice já estava alto demais para eu simplesmente piorar tudo. Sim, eu tenho vergonha de mim mesma.
Quando finalmente estava devidamente posicionada, preparei-me para aquela sensação maravilhosa de alívio. Aaah, eu quase consegui senti-la. Quase, eu disse. Foi quando percebi que iria acontecer um desastre, o mesmo desastre que eu temia que acontecesse antes de estar naquele lugar: EU NÃO HAVIA BAIXADO A CALCINHA JUNTO! Ok, eu sei que sou uma idiota. Não sei o que havia acontecido comigo naquele dia, esse não é o meu normal. Juro.
Foram segundos de puro desespero, pois acho que todo mundo sabe qual a sensação de estar quase lá, mas ter que parar. Dói a bexiga de uma maneira absurda. Chacoalhei os braços alguns segundos, como se isso fosse me ajudar em alguma coisa e puxei a calcinha de uma vez, em seguida suspirando aliviada ao perceber minha bexiga se esvaziando. Estava tão bom que eu quase apoiei as costas na parede. Mas aí me lembrei de como ela estava belamente decorada.
Depois que terminei, olhei em volta a fim de procurar papel higiênico. Ok, não era motivo para pânico. Fora eu mesma que entrara em uma cabine masculina, não? Era óbvio que não tinha papel higiênico. Mas não era motivo para eu me descabelar. Ok, era sim: EU IA FICAR TODA MOLHADA! QUE NOJO! Chacoalhei o quadril choramingando, quando lembrei que havia guardado um pacote com guardanapo da última vez que eu fora ao McDonalds. Eu era um gênio!
Não era fácil tentar achar um objeto pequeno daqueles no mais absoluto breu. Mas eu era habilidosa (não!), então logo meus dedos se fecharam em volta do pacotinho e eu o puxei ansiosamente — afinal, eu não havia esquecido que tinha uma matéria para entregar. Mas algo horrível aconteceu: no movimento, outra coisa também voou da minha bolsa. E sim, sei que isso parece filme, mas ERA A MINHA MATÉRIA, que estava muito bem guardadinha dentro do pendrive.
E a MINHA LINDA MATÉRIA foi engolida pelo buraco negro que você tem até medo de chegar perto, esperando que a qualquer momento uma mão enluvada irá te puxar pelo traseiro rumo ao infinito. Sim. A mão enluvada a levou. Mas seria bem melhor que a mão enluvada tivesse me levado, porque pelo menos no infinito não haveria um chefe furioso pronto para me matar e depois dar meu corpo para canibais famintos.
Bom, mas como eu estou contando isso tudo, é fácil presumir que eu não morri. Claro que foi por pouco, e eu tive apenas meia hora para refazer uma matéria nova em folha antes que perdesse o emprego. Ou meu pescoço. E aqui estou eu, contando meu trágico acidente e apelando através desse artigo uma reforma geral em cabines de banheiros químicos. Essas invenções do demônio podem não só sugar você para o infinito, como quase acabar com sua carreira. ESSAS PORCARIAS MERECEM SER BANIDAS DO MUNDO.

1 comentários:

Unknown disse...

Hilário, adeus e boa sorte ao pendrive hahahaha
Adorei Mari <3

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M.
Cuiabá, Mato Grosso, Brazil
Maranhense, 23 anos, Psicóloga em formação, escritora, zumbi nas horas vagas.
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