segunda-feira, 25 de março de 2013

Na Ponte.


— O que você pensa que está fazendo, meu jovem? Desça já daí, se cair dessa ponte, não irá sobreviver.
— Não quero viver mais.
— Mas... Ora, por que você não iria querer? Viver é uma coisa tão boa.
— Pra você é fácil falar, já está quase no fim da vida.
— Quantos anos você tem, meu menino?
— O que isso importa?
— Importa porque dá pra saber o que falta pra você viver.
— Ta, eu tenho 18 anos. Grande coisa.
— Não, não é uma grande coisa. Você ainda nem sequer amou.
— Se você quer saber, já sim.
— Errado, meu filho. Eu tenho um pouco mais de 80 anos, e já passei por tudo isso, então sei exatamente o que você considera amor nessa idade.Você ainda tem tanta coisa pra passar...
— Ah, é? E o quê, por exemplo?
— Você nunca teve a sensação de casar com quem você ama... Aquele sentimento de felicidade, de vê-la ali parada na sua frente, com aquele sorriso tímido, mas ao mesmo tempo radiante. A sensação de saber que naquele momento foi selado o amor eterno, que todos os dias pro resto de suas vidas, vão acordar um do lado do outro...
— Com a convivência não enjoaram?
— Problemas sempre vão ter, mas a vontade de dar certo foi maior... Sabe filho, a geração de vocês é mal acostumada. Quando algo começa a quebrar, vocês compram um novo... Nós fomos ensinados a tentar consertar até a última tentativa.
— Mas não são coisas iguais, o senhor está falando de um casamento.
— O princípio é o mesmo.
— O que mais eu tenho pra passar, de tão maravilhoso?
— O nascimento dos seus filhos. É um momento muito bonito, uma emoção que vale a pena passar, quando aquele pequeno ser que você sabe que veio de você, te olha pela primeira vez, pega na sua mão e às vezes sorri. E você reconhece os seus olhos, o seu sorriso, os seus trejeitos naquela pessoinha.
— Não sei se quero ter filhos, eu...
— Até que...
— Até que o quê?
— Eles casam e vão embora. E o tempo passa, ele acaba castigando você, a velhice é uma fase de sabedoria, meu jovem, mas muito cansativa e desgastante... E um dia a vida resolve levar o seu amor de você.
— Eu...
— E você olha para ela, pálida e de olhos fechados, acaricia sua pele gélida, pensando que nunca mais vai poder senti-la quente ao seu lado pela manhã, que nunca mais vai mexer nos seus cabelos, que...
— Eu realmente sinto muito, eu...
— E você vive o restante da sua vida, se perguntando se ainda virá algo para você, ou se você realmente já viveu tudo o que precisava viver.
— Acho que... Eu deveria tentar mais um pouco.
— Você tem a vida toda, meu filho. Para mim que não resta mais nada... Se um dia conhecer um dos meus filhos, diga que os amo e que mando minha benção.
— Quê? O que o senhor está...? Espere, não faça isso. NÃOOOOO!

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Cuiabá, Mato Grosso, Brazil
Maranhense, 23 anos, Psicóloga em formação, escritora, zumbi nas horas vagas.
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